domingo, 21 de julho de 2013

Desculpa Se Sou Puta -Parte 1 - Capítulo 10


"A sobriedade porém não gosta de aventuras, mas ninguém é estupidamente sóbrio a este ponto...
Conto os dias que nos separam.."
Inês Dunas: http://librisscriptaest.blogspot.pt/2012/07/ode-aos-desamores-ridiculos.html


O mundo não acabara repentinamente nem a minha vida levara qualquer volta pelo simples facto de ter contado detalhadamente à minha melhor amiga o meu envolvimento com P. Pelo contrário, julgo mesmo que me  aliviara do desconforto da ausência de notícias dele.
Os dias passavam penosamente longos, entre aulas que nunca mais acabavam e discussões intermináveis com a minha mãe. No fundo, era um forte regresso à pura rotina dos meus dias, a um existir penoso onde nem sempre havia uma mísera nota de 5 euros no bolso para afogar os meus dilemas e dramas em gomas.
O ostracismo a que ele me lançara começava lentamente a penetrar nas falhas do meu escudo emocional e qual Ser com vida própria ameaçava causar estragos a todos os níveis.
A minha confiança descia vertiginosamente no ritmo dos ponteiros das horas e já nem a série Glee me fazia sorrir. Tendia, nestes últimos dias a aceitar a versão de V. de que tudo não tinha sido apenas um divertimento para P e que e facto não tinha qualquer importância para ele.
Resistira até então à vontade de me baldar às aulas e plantar-me à porta de sua casa, exigindo explicações, mas de certa forma, inconscientemente temia ser confrontada com o regresso da Senhora P e então não poderia mais voltar a sonhar. Lutara igualmente contra a vontade de aceder ao Skype e procurar sondar a minha amiga de infância e por sinal a filha de P sobre tudo o que ela me pudesse acrescentar sobre ele.
Pois, resistira a tudo isso e a verdade é que nada de interessante essa resistência me trouxe. Não houve prémio de bom comportamento ou recompensa para a minha paciência.
A verdade era fria e dura para mim. P cortara-me da sua vida ou de certa forma eu havia perdido o interesse para ele e este era um cenário que me transtornava de sobremaneira. Ninguém gosta de ser colocada a um canto, muito menos uma jovem de 14 anos que achava ser mulher.
O pior de tudo, era o recalcamento diário expresso no olhar de V sempre que estávamos juntas e o assunto vinha à baila. Era doloroso admitirmos que estávamos enganadas
Foi com surpresa quando ao descer as escadas do meu quarto, após ter tomado um demorado duche, ouvi a voz dele. O mesmo timbre pausado, monocórdico mas com repleta autoridade. Atarantada encostei-me à parede, como se tivesse levado um estalo com uma intensidade incalculável e tivesse de ter cuidados médicos. Subitamente o coração batia-me sem controle no peito, as pernas tremiam-me e não conseguia respirar. O que raio fazia ele ali? Como podia ele estar a falar com a minha mãe?
Os sons da conversa chegavam-me em espasmos incontroláveis, numa cacofonia que o meu cérebro não conseguia distinguir. Era como se eles estivessem a falar numa língua incompreensível e eu tivesse os ouvidos cheios de água.
Na verdade, para mim naquele momento, nada daquilo me fazia sentido. Ele não conhecia a minha mãe, a minha mãe não o conhecia e era assim que tudo deveria continuar....Ou será que se conheciam?
Bom, de qualquer forma ele não seria louco a abrir o jogo, pelo menos não com a minha mãe e veio-me à cabeça algo que V me dissera: "Se houver merda, lembra-te sempre que o pedófilo é ele. Faz-te de vítima!".
Ganhando coragem, sob esse ponto de vista desci as escadas, embora ainda controlando as pernas que ameaçavam ceder a qualquer instante.
Ao fundo das escadas, ao virar para a sala dei com o sorriso dele de frente. Tranquilamente sentado na cadeira que em tempos tinha sido ocupada pelo meu pai, tendo a minha mãe optado por se sentar no sofá perto dele, também ela me sorriu o que motivou logo o meu sorriso de escárnio:
-Fartei-me de te chamar! - Atirou ela calmamente.
-Sabes que tomo banho sempre com o rádio alto.
-Claro, tens essa mania de quereres ficar surda muito cedo.
-Não é mania, tu não percebes nada. - Ripostei sem tirar os olhos dele.
-Sabes quem é este senhor?
-Sei. - Respondi nervosamente.
-Ele veio te convidar para jantares com eles hoje.
-Eles? - retorqui sem pensar.
-A filha e a esposa claro.
-Ah....Claro!
-Espero que não leves a mal, mas a minha filha não tinha o teu número...- Ele resolveu entrar na conversa.
-Não tenho telemóvel.
-Ah não? Isso é raro nos dias de hoje.
-Oh eu não deixo. Sabe, os jovens de hoje têm a mania que são independentes, que são donos do seu nariz e há muitos perigos. Eu tento proteger S o máximo que posso.
-Perigos? - Sondou P com malícia.
-Absolutamente. Eu leio nos jornais sobre os perigos de internet e telemóveis.
-Treta. Ela não que que fale com o meu pai ás escondidas. - Provoquei num tom de escárnio.
-S, sabes bem que não é verdade...
-Mas o telemóvel pode ser importante se ela precisar de falar consigo.
-Comigo? - A minha mãe soltou um risinho trocista- Mais depressa pedia ajuda a um estranho que à própria mãe. Sabe ela está naquela fase...
-Oh compreendo! - mentiu ele.
-Certamente que passa pelo mesmo com a sua filha?
-Certamente que sim. - Respondeu com indiferença.
-Bom e posso ir jantar ou até isso estou proibida?
-S que ideia estás a dar a este senhor? Alguma vez te proibi de visitar amigas?
-Não.
-Vês!
-Porque vou sempre sem te pedir...
-Esse teu feitio! És igualzinha ao teu pai!
-Quem me dera...
-Se continuas com essa atitude minha menina, não vais a lado nenhum durante anos...
-Típico...
Antes que o ambiente fervesse ainda mais P ergueu-se rapidamente da cadeira  e sempre de sorriso firme , deu-me o braço enquanto se apressou a esclarecer a  minha mãe:
-Tenho mesmo de "raptar" a sua filha, pois já se está  a fazer tarde e temos gente à espera. Espero que de facto não se importe.
-Oh não. Até porque amanhã é Sábado e não há escola.
-Muito bem, eu prometo que a venho trazer cedo.
-Tudo bem...Eu deito-me sempre tarde.
Por uns segundos deu-me a impressão que a minha mãe estava a fazer olhinhos a P:
-Vamos ou não! - Explodi em fúria.
Antes que a minha mãe reagisse praticamente arrastei-o para fora de casa, desejosa de uma explicação para tudo aquilo. Assim que entramos no carro, ele sorriu abertamente:
-Não foi difícil.
-Onde vamos? - Inquiri ainda furiosa.
-Jantar.
-Ah não, nem em sonhos me vais levar a jantar com...
-Tontinha. Somos só os dois.
-Ah...
Repentinamente a minha vida voltara a fazer sentido!



Desculpa Se Sou Puta -Parte 1 - Capítulo 9







Há dias assim, em que o mundo cheira diferente
e a gente acha que tudo encaixa, até nós...
Num profundo estado embriagado absorvemos a vida,
felizes, inocentes, crentes..

Inês Dunas :This Thief
http://librisscriptaest.blogspot.pt/2013/06/thieve.html


Penso que de certa forma, todos nós temos amigos e conhecidos, pessoas que invariavelmente circulam à nossa volta, como planetas ao redor do sol. Tal como esses planetas, todos esses amigos e conhecidos são diferentes, uns mais frios, outros mais distantes, alguns mais interessantes que outros e de certa forma para muitos deles, sinto-me um sol, uma fonte luz. Não que seja particularmente uma expert em relações, longe disso aliás, mas a minha maneira de estar e ser, contrariamente ao que a minha mãe afirma, por vezes cativa.
Por outro lado, se sou geradora de luz e confiança, necessito igualmente de me recarregar, como uma bateria de telemóvel e é precisamente aí que entra a V.
Apesar de ser uma amizade recente, V era uma grande amiga, daquelas pachorrentas, sempre certinhas, sempre com um aviso sábio num sorriso aberto, sempre atenta e sempre disposta a perder cinco minutos para me ouvir. Nem sei ao certo como a nossa relação começou- O que sei é que como um Íman poderoso, ela me atraiu com o seu ar neutral, com a face serena que sempre irradia paz a quem a olha.
Pouco a pouco, foi coleccionando todas as minhas desventuras familiares, o meu drama com a separação dos meus pais, o meu desinteresse por tudo, sobretudo pelas aulas.
Para\além de ter o condão de me acalmar e aconselhar V era igualmente  a "mana" mais velha dois anos e com uma cultura brutal para a idade. Basicamente ela sabia um pouco de tudo, uma espécie de enciclopédia ambulante e não, não era uma caixa de óculos armada em sabichona. Aliás, só descobri que afinal V era humana e mortal, quando chumbou a matemática e de certa forma, por uma vez senti-me bem a saber que também ela podia chumbar nos mesmos testes que eu. V Era loira, do mais louro que vi, bastante alta e sardenta. Para além do mais, tinha uns olhos pretos muito redondos, muito abertos, que motivava a alcunha de "Lady Fish". Sim, a escola era um sítio terrível para quem era diferente.
Mas ela não se ralava muito com isso, penso inclusivamente que até achava piada à alcunha, seja como for eu estava com um enorme dilema e nesta idade, apesar de não haver teorias cientificas que o comprovassem, sabia de fonte segura que os dilemas poderiam criar AVC`S em jovens (tinha visto algo do género num canal por cabo).
Poderia eu contar a minha nova aventura a ela? Poderia eu abrir-me ainda mais, com quem até então partilhara tudo da minha vida? Nós miúdas, precisamos de ter os nossos segredos, mas se há algo que aprendi é que convêm ter alguém por perto que saiba do que se passa, no caso de dar merda.
Durante dois dias em que não vi, ou tive notícias de P matutei neste dilema. Precisaria de V, ou simplesmente esconderia dela também este segredo?
Mas, se eu escondesse dela a minha relação (porque realmente achava,na minha inocência que era isso que eu tinha com ele), não estaria a admitir, embora inadvertidamente que a nossa relação não era tão natural assim e que na verdade, ser a gaja de P. era mais uma vergonha que uma virtude cantada e exaltada aos quatro ventos?
Ser uma jovem liberal, neste Mundo cinzento era de facto o cabo dos trabalhos. Decididamente teria que contar a ela e logo veria a sua reacção. Pois a verdade é que estes últimos dias tinham sido diferentes, tinham sido uma lufada de ar fresco e de certa forma tinha-me esquecido completamente do drama da separação dos meus pais. Até dava por mim muito mais interessada no que vestia, e na escola. Repentinamente a escola não me parecia tão infernal assim.
Decidi avançar, afinal V era a minha melhor amiga e se tudo corresse como esperava, iria ser igualmente útil para mim desabafar e falar de P. com alguém e ela era de facto a pessoa ideal. Teria contudo de ter algum cuidado na abordagem do assunto, pois se algo a minha amiga tinha era um cinismo apurado e regra geral, um ódio de morte por relações amorosas, ( nunca me contou o porquê, mas parto do principio que tal se deve a ter tido algum desgosto).
O plano foi orquestrado mentalmente na aula de físico-química nessa manhã e calculado ao pormenor. Só havia uma oportunidade para estar tranquilamente com ela e teria de ser na cantina à hora de almoço, pois tanto eu como ela éramos as duas únicas almas impedidas de sair da escola para comer algo nos cafés circundantes, visto tanto a minha mãe como a dela serem autênticas lunáticas que calculam existirem tarados e psicopatas assassínos em todas as esquinas , mas que fique bem claro que nós demos luta e ainda damos nesta questão, embora saibamos de antemão que tal questão só ficará resolvida com a maioridade, a menos que...Bem isso serão outras lutas.
O facto é que o impedimento de sairmos funcionava como uma causa aliada e era sempre mais fácil ter os ouvidos dela despertos na raiva imensa de se sentir prisioneira.
Cuidadosamente encenei a minha actuação, evitando frases feitas ou o espalhafato de Teen histérica, ( tudo coisas que ela odiava).
Mordiscando uma sandes com pasta de atum, atirei:
-Pstt, tenho News para ti.
-Então?
-Algo bastante recente...
-Drama caseiro? - inquiriu franzindo o sobrolho, o que alargava ainda mais o olho.
-Népia. Tudo na mesma lá por casa.
-Então?
-Conheci um sujeito...
-Continua. - Ela esboçou um sorriso rasgado.
-Bem foi repentino, praticamente foi do nada e ....bem foi uma cena marada.
-Conta-me!
-Foi há alguns dias...Lembras-te que faltei as aulas de manhã?
-Sim,mas disseste que estiveste de cama com gripe.
-Não. Inventei isso, desculpa.
O sorriso dela apagou-se repentinamente do rosto, pois odiava que lhe mentissem e pior ainda que eu lhe mentisse, mas estava disposta a ser o mais sincera com ela agora:
-Não podia te contar a verdade, não estava preparada para o fazer.
-Preparada? O facto de teres um namorado novo é assim tão grave que precises de te preparar? - O tom de voz dela subiu ligeiramente.
-Mais ou menos.
-Ok, conta-me tudo agora. - Disparou ela após uns minutos de silêncio.
Contei-lhe o que se passara, a minha entrada no carro, a nossa ida a sua casa e não omiti qualquer parte do que me lembrava que se tinha passado na casa. V estava visivelmente incomodada e algo transtornada.levou alguns longos minutos até conseguir digerir todo o diálogo:
-Em suma, que idade ele tem?
-Não faço ideia.
-Idade para ser teu pai?
-Sim, creio que sim.
-Merda. Deve ser um tarado. Em que merda te foste meter?
-Não é tarado, eu conheço-o.
-Mesmo assim, a diferença de idade...
-Não me fales em diferenças de idade. Eu vejo isso pelo meu pai e a outra lambisgóia
-Mas é diferente.
-Porquê?
-Porque és menor. Foda-se S tens apenas 14.
-Um número apenas. Não és tu que dizes sempre que a idade é apenas um pretexto da sociedade para nos condicionar?
-Sim, mas não nesses assuntos.
-Mana, não há assuntos assim ou assado. Eu amo-o e ele ama-me. Podes viver com isso?
-S. só tenho receio que possas estar a ser vítima de um tarado.
-Pareces a minha mãe!
-Olha, eu curto-te muito, a sério que sim. Mas por favor, não me peças para entender isso tudo.
-Terás que o conhecer.
-Ok, se isso te faz feliz.
A crispação e o nervosismo tomaram, como eu esperava um enorme espaço entre nós, mas eu acreditava que assim que ela conhecesse P iria entender que ele era genuíno.
O que não poderia saber é que V que era a minha melhor amiga iria ser puxada por mim, para a merda.