"O corpo é cama de odores almiscarados,
caminho de dedos, de medos, de descobertas...
É piano de palavras, pauta de gemidos, batuta dos sons
disfarçados de promessas quentes segredadas nos ouvidos...
É toque de mãos intranquilas, ardentes, ansiosas,
nervosas que se encontram e se encaixam.."
Depois de praticamente ter sido raptada numa operação de charme de P, para um suposto jantar a três, deixando a minha mãe convicta de que estaria em boa companhia e livre de tarados, eis que ele estaciona tranquilamente o Ford cinzento diante de um hotel de aspecto requintado bem no centro da cidade.
Obviamente que tinha consciência de que se podia jantar nos Hotéis mesmo não estando lá hospedado, mas por qualquer razão não me parecia que fosse esse o caso.
P tinha feito o percurso sem proferir qualquer palavra, à excepção de um "estás bem?". nem tão pouco fizera qualquer esforço para justificar a sua ausência durante todos aqueles dias. Ele limitava-se a conduzir, como se de certa forma tivesse a certeza de que eu sabia para onde me levava e a verdade é que eu não fazia a mínima ideia, mas também nada perguntara.
Dado que ele podia dar-se ao luxo de nada dizer eu entendi igualmente que ele não precisava de saber da existência de V nem tão pouco o colocar ao corrente de que desabafara com ela sobre nós. Há coisas que uma mulher deve reservar apenas para si, sobretudo se se tratar de um plano B qualquer.
Assim que saímos do carro, dirigiu-se ao porta-bagagens tirando uma mala e sem perder tempo estendeu-ma:
-Esta é a tua mala!
-Para que preciso de uma mala para jantar?
-Não precisas, mas eu quero que a leves.
-Porquê?
-Porque sim.
O tom de autoridade da sua voz, próprio de quem sabia o que fazia convenceu-me e surpreendeu-me que ao pegar na mala ela estivesse leve, como se estivesse vazia.Se por um lado era agradável transportar algo com pouco peso, por outro lado deixava-me intrigada e de certa forma ansiosa. Aliás, até esse momento todo o comportamento dele era dúbio, intrigante e misterioso e eu, na penumbra dos meus catorze anos estava deliciada com tudo aquilo. Adorava que ele se apresentasse assim, misterioso e charmoso. Adorava a sensação de não saber o que poderia esperar, de não imaginar o que quer que fosse que ele tivesse pensado ou preparado para mim. Nós miúdas amamos mistério!
Sem me dar qualquer explicação, segui-o até ao balcão do Hotel, onde levantou as chaves de um quarto e tranquilamente levou-me até ao elevador e daí até ao quarto.
A surpresa aconteceu segundos depois, quando após ter colocado as malas cuidadosamente na cama , sentou-se pesadamente na mesma e encarando-me com um rosto preocupado, solicitou:
-S preciso de ti!
-Como assim?- Perguntei nervosamente.
-Sabes que trabalho em multimédia. Isto é, sou dono de uma empresa de serviços multimédia e neste momento passo por algumas dificuldades.
-Sim e?
-Acontece que tinha uma encomenda importante para um video a pessoa que ia participar nesse video não pode estar presente.
-Não estou a ver o que...
-Por favor, deixa-me acabar. Como te disse é uma encomenda cuja contrapartida financeira é aliciante e estou em cima do prazo. Uma vez que já não posso contar com a minha modelo habitual, pensei em ti.
-Modelo... Modelo de quê?
Nunca tinha visto P tão abatido. Parecia que carregava um enorme peso sobre os ombros e até a voz habitualmente autoritária era agora de suplica.
-Entende, eu vendo o que me pedem. Faço o que posso por manter uma certa integridade, mas vivo de encomendas.
-Mas eu não tenho corpo de modelo.
Ele passou as mãos pelo cabelo, num gesto de desespero e respirando fundo, concluiu:
-Desculpa. Pensei que podia contar contigo mas compreendo agora que era pedir demais. Se a miúda com quem habitualmente trabalho não estivesse indisponível...Bom, acho que vou ter que sair e procurar alguém.
A simples ideia dessa noite acabar prematuramente ali nesse momento colocou-me em choque. Havia esperado tantos dias para o voltar a ver e subitamente não poderia me dar ao luxo de voltar já para casa. por outro lado, se ele me levasse tão rapidamente a casa a minha mãe iria com certeza achar que eu havia aprontado alguma e seguir-se-ia um questionário interminável e eu não estava com pachorra para essas merdas.
Encostei-me à parede e sem pensar atirei:
-Ok, ao certo que esperas que eu faça?
Metodicamente ele pegou na mala, abrindo-a sobre a cama e pegando no que parecia ser um fato qualquer em latex e entregou-me:
-Para já precisava que vestisses isto!
-Se me servir...
-Acredito que sirva.
Lancei um dos meus sorrisos irónicos:
-Queres que me vista aqui?
-Não. Usa a casa-de-banho, pois prefiro ver no fim. Chama-me quando estiveres pronta.
Encolhi os ombros. apertei a peça de roupa, como controlando certa raiva e num encolher de ombros preparei-me para a tarefa, não sem antes ouvir uma ultima ordem:
-Não uses roupa interior.
-Oh Deus! - Murmurei inquieta à medida que porta de W.C. se fechava.