“Escrevo as linhas ténues do meu sonho,
Frágeis fragmentos de lucidez roubada,
Momentos, mais nada…
Podia amar-te hoje, lamber o salitre da dor que me
trazes,
Perdoar sem esquecer-te…”
Inês
Dunas
Havia perdido os
primeiros gritos de guerra, enclausurada nos meus lençóis de flanela, incapaz
de reagir a mais uma segunda-feira penosa que se aproximava devagar sem querer
espantar os mortais que encaram esse dia como uma penosa jornada.
Era obviamente o
meu caso. Para mim, aos 14 anos a escola é uma tremenda seca, os transportes
públicos são um tormento, as profs uma violenta dor de cabeça e sair ainda de
noite para todo este tormento era uma perfeita loucura. Fosse eu que mandasse
no mundo e decretaria a proibição de sairmos de casa como morcegos, às
apalpadelas na escuridão de uma madrugada fria.
No piso inferior
a generala (alcunha que dou à minha mãe, especialmente às segundas-feiras ou
quando debita ordens incompreensíveis), berrava a plenos pulmões que era hora
de levantar…e a escola…blá…blá….blá.
A minha mãe é
aquele género de pessoa chata, que acha que sabe tudo, que percebe tudo, que
sabe o que eu quero, o que sinto e o que passo, mas ela não sabe nadica de
nada. Se há algo que odeio mesmo do fundo do coração é o ar presunçoso dos
cotas que acham que somos apenas crianças, que somos apenas fiteiras, que
necessitamos apenas de estudar, de marrar e blá,blá,blá. Que diabo, somos
pessoas como eles, com gostos e ódios mil e temos todo o direito a não querer
que as ditas "verdades Universais" brotem de bocas de gentinha que
nada é na vida.
Veja-se o meu
caso, ou por outra, o caso da minha mãe. Funcionária do correios,(não, não anda
de mota a distribuir cartas, se bem que isso era fixe), em nove anos
nunca foi promovida, ao contrário da colega dela que só lá está há um
ano. Depois, separou-se há cerca de dois meses, porque o meu pai descobriu que
a secretária dele era mais eficiente e mais nova que a cota da minha mãe e
ainda por cima, perdeu o carro que havia comprado, com a desculpa de que já era
velho e só daria despesas extras. Isso fez-me pensar que também ela era velha e
a adivinhar pelos montes de comprimidos que sempre traz da farmácia, poderia
igualmente fazer-lhe uma rifa com a mesma desculpa.
Eu não sou
mimada, sou apenas ciente do conforto e o carro, bem vistas as coisas, era o
espaço quente e tranquilo, os vinte minutos de tranquilidade antes de ser
largada na tortura. Era uma espécie de última refeição de um condenado à morte.
O meu pai claro, é o
meu herói Sempre foi e sempre será. No dia em que ele saiu de vez de
casa, sentou-se à cabeceira da minha cama, explicando-me o que estava a
suceder, com longas pausas, gestos teatrais e frases feitas ou bem ensaiadas
mas quanto mais ele se alongava nas explicações, mais percebia que,
embora sem o dizer, a minha mãe era a culpada da sua saída e isso enfureceu-me.
Saí para o dilúvio sem uma palavra, sem
sequer olhar para trás. Mãe que é mãe nunca permitiria que filha fosse para
escola neste temporal, pensei eu amargamente quando o meu Nokia vibrou:
-Onde estás?
-Ao frio e à chuva a caminho da escola
e tu?
-A caminho também. Estás perto de casa?
-Sim…Porque?
-Estou com o meu pai. Queres boleia?
-Lógico. – Sorri eu esperançada.
-Ok S.
A.era a minha mais recente amiga e já a
caminho de uma promoção de melhor amiga. Era aquele tipo de miúda que sabe
sempre ouvir e dar um sorriso esperançoso. Além disso e apesar de só a conhecer
á meio semestre acompanhou de perto o meu drama da separação dos meus pais. Ou
seja, adoro-a.
O Ford Fiesta cinza chegou
relativamente rápido e lá dentro os dois sorriam-me. A vinha à frente no lugar
do pendura e o pai ao volante. Não perdi tempo e entrei para o banco de trás,
lutando para me sentar com o guarda-chuva, a mochila e a minha aptidão natural
para ser desastrada sob pressão.
E é precisamente por esta boleia e no
quanto ela me influenciará que escolhi este chuvoso dia, como o princípio da
minha história.

q saudades... :))))))))))))
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