"O mudo som da confusão mórbida que sufoca e provoca ao passar o Amor,
aquele sentimento gasto, de quem gastou o que não tinha e mantinha uma ilusão qualquer...
Crescer dói, mas cura, porque arde."
Inês Dunas: Antigo Testamento
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O som da chuva regressava à minha
consciência e lentamente, nesses dois ou três minutos que se passaram,
custava-me a acreditar no que os meus olhos me transmitiam.
Aparentemente estava no mesmo sítio, o
Ford Fiesta permanecia de porta aberta e eu sentada, com P. a olhar-me com um olhar meigo mas simultaneamente de
preocupação.
Rodei vagarosamente a cabeça e constatei
que havia já um circo de curiosos a
rodearem o carro e eu estava confusa, cada vez mais confusa.
-Que aconteceu?
-Bem vinda ao planeta Terra, creio que
perdes-te os sentidos.
-Eu?
-Sim, mas é normal. Resultado do estado de
choque, pois a avaliar pelo estado da bicicleta deve ter-te doído um bocado.
-Mas então e os beijos?
Houve uns segundos de hesitação da parte
dele, como se eu estivesse estado a delirar e então numa voz calma, acompanhada
de um erguer de sobrancelha inquisidor, indagou:
-Beijos? – Perguntou ele agora com um
gargalhar.
-Sim…Bem…Mas…
-Ainda está confusa. É natural, eu vou-te
levar ao Hospital. – Apressou-se ele a esclarecer, mais para os curiosos que
circundavam a porta do carro do que para mim.
A minha cabeça girava a cem à hora, o meu
coração palpitava e definitivamente não estava bem. Nunca fui propriamente uma miúda
de imaginar contos de fadas, nunca brinquei às princesas e aos maridos…Que se passara
comigo naqueles instantes? Perdera de facto a consciência? Teria imaginado tudo
e em caso afirmativo, porque o tinha feito se nunca me havia dado para pensar
em gajos?
De certa forma recusava-me a acreditar que
a minha mente pudesse usar e abusar de conceitos, emoções e sensações que eu
desconhecia por completo. Não que tivesse alguma aversão ao sexo ou temas
relacionados com ele, simplesmente nunca tive curiosidade ou vontade. No que a
mim me dizia respeito, sexo não existia. Contudo algum fundo de verdade devia
ter, constatei mentalmente enquanto massajava o joelho, nas calças sem rasgão
visível.
Teria efectivamente chorado como uma
criança, teria havido a linda troca de beijos que me haviam embevecido?
Não sabia o que pensar, apenas concluía que
era de facto impossível ele ter regressado ao local onde tudo se principiou e
os curiosos que observavam, temendo que provavelmente estava louca….Mas será
que de facto estava?
Não era bem um sentimento de Dejá Vu uma vez que a realidade seria
sempre diferente dos meus sonhos. Até agora, constatava eu perfeitamente
desconsolada, sempre tinha sido assim. Os meus sonhos nunca batiam certo.
P. contudo era igual aos meus devaneios, os
seus gestos sempre tranquilos, a calma em pessoa e o sorriso sempre confiante e
tranquilizador. Reparei inclusivamente, com certo agrado que pelo menos o Aftershave
era igual ao do meu pai (bom pelo menos isso eu não sonhara) e que quando ele
sorria arqueava ligeiramente a ponta do lábio inferior, dando a curiosa vontade
de o morder. E lá estava eu outra vez, a levantar voo para longe daquele carro.
-Não
quero ir ao Hospital. Nem tão pouco tenho chaves de casa ou alguém lá à espera.
– Atirei eu, decidida a cortar caminho.
-Não faz mal, sou enfermeiro pelo que não
acredito teres nada partido.
Olhei de lado sem surpresa ou admiração,
afinal a realidade perseguia o sonho, ou seria o inverso?
-Vamos
até casa e faço-te um curativo.
-Por mim tudo bem. – E secretamente sorri
ao de leve esquecendo de vez as dores do joelho.
Nunca tinha estado em casa de A. dado que
a nossa amizade era recente e no entanto era como se de certa forma a fachada
do prédio me fosse familiar. Era um prédio Azul de três andares, com varandas
curtas e de frente para a maior Avenida da cidade.
P. seguiu para as traseiras do edifício
até à garagem, rodando com bastante precaução dado que a entrada era
relativamente apertada e accionou o botão de abertura do portão. Como
adivinhando os meus pensamentos apressou-se a esclarecer:
-Não tenho o hábito de guardar o carro na
garagem.
-Porquê?- Interroguei sem saber o que
poderia perguntar ao certo.
-Trabalho por turnos e é mais fácil deixar
o carro à porta de casa.
-Trabalha hoje? – Perguntei hesitante.
-Hoje não. – Limitou-se a dizer.
O lugar de garagem era o último no fundo
do corredor e após duas ou três manobras, estacionou e saiu da viatura
apressadamente:
-Consegues andar?
-Se não houver escadas…
-Não. Só elevador.
Perguntei-me, a caminho do elevador se a
sua pergunta seria um convite para me levar ao colo. Estaria ele a ser cortês
ou aquele convite era uma forma atiradiça de me ter junto dele? Subitamente o
meu corpo voltou a tremer de ansiedade.
P. entrou no elevador de porta laranja
depois de mim, fechando-a cuidadosamente como se estivesse a esconder um
tesouro, ou e isto talvez seja delírio meu, a ser cauteloso certificando-se que
entráramos no edifício sem sermos notados.
Depois de ter premido o botão redondo com
o número 2, olhou-me descontraidamente não se parecendo importar com o facto de
também o olhar.
Admirava o seu jeito informal de se
vestir. As suas calças em sarja slim, ajustadas à perna de cor bege, a sua
camisa preta com leves riscas azuis e….Porque estava eu absorta nestes
detalhes? Apenas e tão-somente para tentar descortinar a presença ou não de
inchaço nas calças Jamais tinha ligado á forma de alguém se vestir e muito
honestamente, moda é daqueles mundos do qual eu não faço parte. Tenho colegas
que ligam a isso, que se definem como góticos e outras categorias, outros que
exibem marcas como quem exibe troféus….Eu limito-me a vestir e a usar o que a
minha mãe pode comprar, embora obviamente surjam momentos em que certas peças
de roupa por ela compradas desaparecem misteriosamente no caixote do lixo.
-Com dores ou só pensativa? – Inquiriu ele
perturbado pelo meu silêncio.
- Um pouco dos dois. – Respondi inquieta.
O corredor do segundo andar tinha três
habitações, ou melhor duas portas castanhas nas pontas do corredor e uma
central. Foi na central que ele estacou, procurou as chaves e abriu a porta.
Não estava propriamente à espera de nada
em particular, preocupada que estava em não parecer uma criança assutada com toda
esta situação. Limitei-me a deixar ser conduzida pelo corredor da casa, que embora
me parecesse estar apinhado de móveis não roubava muito espaço de circulação.
Penetramos na sala com ele a acender as luzes à medida que avançávamos até estacamos
diante do sofá creme. Temendo um certo desconforto da minha parte, aproximou-se
pousando delicadamente as mãos nos meus ombros e constatou:
-Vamos lá cuidar de ti. Deves estar
molhada?
Lembrei-me então com algum terror da queda
na poça de água e instintivamente levei a mão ao cabelo. Não estava propriamente
molhado, mas estava peçonhento, com vestígios de lama e provavelmente mal
cheiroso. De repente senti vergonha do meu estado e me senti frágil:
-Creio que sim. – Atirei á laia de
resposta.
-Mas primeiro tenho de ver esse joelho.
Sem
pensar, descalcei-me apressadamente com a biqueira a empurrar a sola do outro
pé, abri o botão jeans, baixei o fecho, deixando-as cair aos meus pés e
chutando-as para o lado, indiferente à presença dele.
Só então me apercebi que estava de
calcinhas azuis na frente de P. e estremeci incerta se de prazer ou frio.
Ele ajoelhou-se, aparentando não se ter perturbado apertando habilmente o
joelho, soprando como se de certa forma estivesse a invocar algum espírito
benigno para me proteger o joelho e sentenciou:
-Apenas uns arranhões. Tiveste sorte, nada
que um pouco de álcool não resolva!-Proferiu ele na sua experiência de enfermeiro enquanto me alisava a perna.
Adorava sentir o seu toque nas pernas,a suavidade dos finos dedos a percorrerem ao de leve a minha pele.
Sem esperar por convite, sentei-me no sofá
e vi-o a afastar-se para o interior da casa de onde regressou com álcool etílico
e algodões, voltando a ajoelhar-se diante de mim.
Ali estava eu, em calcinhas sentada no
sofá, com um Homem com H grande, os dois sozinhos, com todo o tempo do mundo. Sem
proferir qualquer som, ao sentir o frio toque do algodão embebido em álcool:
-Tenho dores aqui também. - Esclareci apontando para a minha virilha.
-São fortes? -Inquiriu ele pensativamente.
-Um Pouco. -Menti eu
Lentamente abri as pernas, sentindo a presença da cabeça dele perto do meu sexo e
enquanto pousava a mão esquerda nas minhas calcinhas como para o chamar à atenção,
pousei a mão direita na face dele, sentindo a barba curta a picar-me palma da mão. Ele levantou os olhos e instintivamente afastei as calcinhas exibindo o meu sexo, sem saber ao certo se ele o queria ver.
Ele pareceu hesitar, sorriu ao de leve, baixou a cabeça e concentrou a sua atenção no meu palpitante sexo, usando o dedo indicador em círculos curtos sobre os fracos pelos pubianos.
Agora eu era S. a mulher fatal, a seduzir o meu primeiro homem.
No fundo, queria sentir a realidade do que
havia sonhado no carro, quando perdera os sentidos e temendo voltar a perdê-los
agarrei-lhe os cabelos, implorando um ensurdecedor : “Sou tua”!

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