Há uma mágoa que me atravessa como água,
preenchendo os espaços todos...
Não quero passar por aquilo outra vez,
mas talvez o sofrimento se queira passear por mim...
Inês Dunas: A Fábula da Bela Adormecida e da Cobra
A.
guardou cuidadosamente o telemóvel no bolso direito do casaco e sem pensar duas
vezes, acelerou o passo para o exterior do recinto da escola. A chuva abrandara
e a mensagem que recebera de S. tivera o condão extra de a
desassossegar.
Por um lado ficara
aliviada por saber que a sua amiga estava bem, ou pelo menos a ser acompanhada
pela experiência médica do seu pai, mas por outro lado o saber que ela estava
em casa com o pai, os dois sozinhos não lhe caíra bem.
Claro que ela amava o
pai e depois da morte da mãe, quando ela ainda tinha dois anos de idade, a
única pessoa com quem podia contar era de facto o pai. A ele, de certa forma lhe
deve os primeiros passos, os primeiros sonhos, as primeiras palavras, os primeiros
sorrisos rasgados. Não negava que P. sempre tinha estado presente,
sempre se mostrara realmente interessado em quem ela era e no que ela queria e
sempre lhe dera o apoio que qualquer criança na fronteira da adolescência
necessitava. Na verdade, de todos os pais do mundo que lhe poderiam ter
calhado, jamais alguém seria assim tão perfeito aos seus olhos como P.
Mas depois havia o
outro lado, aquela parte desconhecida do pai. Como se de um outro Ser se
tratasse. Como se no fundo, o homem fosse uma balança com dois pratos de atitudes
diferentes e teria que gerir o claro e o obscuro com mestria. Às vezes,
concluiu ela a entrar para o metropolitano, os dois pratos, as duas metades
reagem de forma diferente, criando um desnível que de certa forma permita que o
pior de nós se revele. E se esse desnível suceder que aconteça apenas na
intimidade de um lar, entre os dois, de forma a evitar julgamentos de valor de
outros.
Isso recordava-lhe um
certo dia, há bem pouco tempo atrás. Não sabia ao certo como seriam os outros
pais, mas sabia que quando se ia deitar e nos dias em que P. estava de folga, ele
se entregava aos seus demónios, na companhia de vários copos de Whiskey,
perdido no seu escritório, sentado á frente do monitor LG.
O escritório que ele
montara em casa, não era um consultório, nem uma extensão da sua actividade
profissional. Era, concluiu A. enquanto subia as escadas da
estação de Metro em direcção ao exterior, o seu refúgio, o abrigo do seu lado
negro. No fundo, a expiação dos seus pecados mais secretos. Era igualmente a
única divisão de casa vedada qualquer pessoa, ela incluída. Algo que de início
ela não entendia, bem como não compreendia o porquê não só de ele fechar sempre
a porta à chave quando saía, bem como só se fechar lá dentro após ela ir para o
quarto. Poderia ele assumir que o seu “turno” de pai tinha terminado ou seria
algo mais egoísta, algo de diferente que ele jamais pudesse partilhar.
Ora durante algum tempo
aquela divisão exercera nela o secreto fascínio de algo que tinha de ser explorado
e um dia a curiosidade foi a sua conselheira. A recordava-se
perfeitamente desse momento, numa quente noite de Julho quando após se despedir
de P.
e supostamente se deitar, aguardou até que ele se fechasse no escritório, para
então pé ante pé caminhar até à porta da divisão, ajoelhar-se e esperançada de
que o pai cumprisse a rotina e retirasse a chave para o bolso, espreitar pela
fechadura de modo a poder descortinar algo de concreto.
Era um tiro no escuro,
dado a secretária não estar na direcção da porta, mas era a única coisa que lhe
restava naquele momento de modo a saciar a curiosidade e nesta idade a
curiosidade era algo que tinha de ser satisfeita, sem qualquer remorso ou
receio.
Nesse dia e para
surpresa sua, tudo correra de feição, no seu plano de improviso. Por qualquer
razão, os astros alinharam-se favoravelmente às suas pretensões e os seus
pequenos olhos cinzentos tragaram de uma vez as imagens que lhes chegavam em
bruto pelo buraco da fechadura. Sorveu-as como pode, evitando perder qualquer
segundo. Concentração, foco e ansiedade no pêndulo dos minutos que permaneciam
imutáveis no tempo, congelados na rotação eterna do planeta. De joelhos e só de
short e T-Shirt ela assistiu a uma cena que jamais esqueceria. A um espectáculo minimalista e que de certa forma a marcara na sua tenra idade.
O pai encontrava-se em
pé, diante da porta, mas virado de lado, agindo como se mais alguém estivesse
presente, o que ela sabia ser impossível. O campo da visão de A.
do ponto onde se encontrava incidia exactamente sobre as calças de fato treino
a baixarem revelando um mastro hirto e a mão dele segurando-o.
Ela sabia que as calças
eram a indumentária favorita do pai, nos serões nocturnos, sobretudo quando
este estava de folga. Sabia igualmente que ele as evitava usar na sua presença
e agora ao ver o estranho ritual do progenitor percebia tudo.
Ajoelhada com as palmas
das mãos coladas à porta, atenta ao que observava pela fechadura, na ânsia de
não perder pitada, cometeu um erro básico próprio da excitação do momento. O
seu pé escorregou levemente, fazendo-a desequilibra-se e embater com a testa na
porta, alertando o progenitor que percebeu que não estava sozinho.
Com um arrepio, mas não
propriamente de frio, A. entrou para o elevador enquanto
tinha presente o som do pai a abrir a porta, ela a retirar-se para o quarto em
passo desgovernado, com o coração aos saltos no seu peito, como se no fundo tivesse
esperado que o pai não reagisse.
Mas o pai reagiu e de
uma forma que a espantou, avançando pelo pequeno corredor, ajustando as calças,
a ferver de raiva e não de vergonha e a entrar de rompante no quarto:
-Levanta-te. – Ordenou ele
com voz de trovão
Ela obedeceu não se dando
conta que a única pessoa envergonhada naquele quarto era ela e de nada tinha
adiantado atirar-se para dentro dos lençóis na expectativa que ele não viesse.
À sua frente P.
mantinha-se tenso como se de certa forma esperasse uma agressividade de A. que
contudo nunca aconteceria. O volume nas suas calças de fato treino cinzentas era
perfeitamente visível e ela segurando as lágrimas como pôde evitou olhar.
-Era isto que querias
ver? Era isto que pretendias? – Gritou P. apontando para o volume nas calças.
-Eu…Eu só queria saber
o que estavas a fazer! – Gemeu ela soluçando.
-Quantas vezes te disse
que aquele escritório é meu e apenas meu!
-Várias. – Concordou já
chorando.
-E no entanto tu não
resististe!
P.
não a deixou responder, aproximando-se dela, passando a mão na face dela. A.
sentia a fúria dele naquele gesto tão pouco habitual no pai e arrependida por o
ter irritado recomeçou a soluçar:
-Muito bem, se querias
ver tudo, não te vou privar disso. Verás em exclusivo!
P.
baixou as calças, a única peça de roupa que mantinha, exibindo o seu sexo
erecto para logo de seguida passar a mão pela T-Shirt de A. que não reagiu,
evitando olhar para o progenitor.
-Tira os shorts!
O membro erecto tremia
de excitação na mão dele.ao mesmo tempo que ela exibia as calcinhas rosa. Sem
proferir qualquer palavra P. apertou-lhe ligeiramente o seio
esquerdo, substituindo no seu membro a sua mão pela mão dela. Orientando-lhe os
movimentos que pretendia. Segundos depois largou o seio, agarrando-a pelos
cabelos, sem contudo os puxar em demasia e forçou-a a contemplar o sexo com
veias salientes prestes a explodir.
Com uma curta pausa,
ele virou-a de costas, deitando-a de barriga para baixo na cama e após um curto
gemido, ela sentiu algo quente a cair nas calcinhas. Não precisou contudo que lhe explicassem o que seria, nem soube por que razão o pai a
poupara de tal visão, mas manteve-se imóvel, de olhos encharcados e os
cotovelos enterrados no colchão, com vontade de desaparecer.
Sem acrescentar
qualquer som à situação, o pai tirou-lhe com extremo cuidado as calcinhas e
limitou-se a dizer:
-Quando voltares a ter
a curiosidade, eu já tenho algo para te mostrar.
E saiu do quarto, num
passo sereno sem emitir qualquer outra afirmação, deixando nela a certeza que
tal jamais se repetiria.
Abrindo a porta de
casa, A. congratulava-se de certa forma por ter sido a única vez que
tinha presenciado na figura do pai, alguém que ela nunca conhecera e esperava
ela nem voltaria a ver.
Sorridente A. entrou
na sala, onde P. estava sentado e subitamente reconheceu a mesma face dura
que vira nesse dia. Esforçou-se por se controlar temendo o regresso do pai mau. Caminhou vagarosamente até à
sua presença , como que implorando que um Dejá vu desagradável voltasse e
contemplou a chorar abundantemente as calcinhas de S. pousadas no sofá.
-Meu Deus ele voltou!

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